Eu me lembro, tia, das arengas com Thulio quando criança. Lembro de como tirava seu juízo e você ficava danada comigo.
Lembro também de quando me levou para uma viagem de férias pelo Ceará. Conheci Canoa Quebrada, Sobral, Aracati.
Tempos depois, me recordo - já adolescente - de um carnaval em que não tinha um real no bolso. Você me ofereceu uma grana para eu ajudar a fechar o balancete do mês na sua loja. Começamos a trabalhar na quinta, acho... ainda faltava bastante trabalho no sábado, mas quando cheguei à mesa para retomarmos os cálculos você disse: "Aqui está seu pagamento, vá curtir o carnaval".
Com o tempo, minha chegada à vida de adulto e tudo mais que cerca o amadurecimento de uma pessoa, nos aproximamos bastante. O casamento de seu único filho - um irmão pra mim - deixava você um pouco saudosa, pela ausência. Lembro, ainda com certa surpresa, que você se sentia à vontade para conversar comigo sobre isso e trocamos ideias algumas vezes. Era muito bacana.
Minha rotina de trabalho sempre complicou muito minhas idas a Acari, isso me fez perder ocasiões que jamais desejaria ter perdido. Seu aniversário de 50 anos foi um desses acontecimentos, mas, mesmo assim, me deleitava só de ouvir as histórias das grandes festas.
Por último, minha memória mais bonita, a última vez em que nos vimos. Foi no domingo, dia 10 de março do ano passado. Ninguém tinha combinado nada, mas eu ainda estava na terrinha e você apareceu com Joãozinho; Thulio e Jaiane também chegaram e nós fizemos uma farra ótima, com direito a ligações telefônicas para Deus e o mundo, só pra fazer inveja. Lia estava quase nascendo, Larissa ostentava um barrigão enorme, então podemos considerar a presença dela também, né?
Tocamos violão e tomamos cerveja até quase a noite, quando, tomado por um raro espírito de adulto, chamei Larissa para voltarmos para Natal ainda no domingo, a tempo de descansar para mais uma semana de trabalho.
A despedida não poderia ter sido mais afetuosa. Lembro de ter beijado sua testa, enquanto você repetia que o quartinho para Lia já estaria arrumado da próxima vez que visitássemos o Seridó. Não teve próxima vez, titia. No dia seguinte, assim, apressada como boa filha de Zé Sobrinho, você nos deixou. Eu estava apostando comigo mesmo se conseguiria chegar ao fim desse texto sem derramar uma lágrima, mas não foi possível, acabo de constatar. Menos de um mês depois, minha filha nasceu; falta menos de um mês para o aniversário de um ano dela. A sua imagem é presença constante nos meus pensamentos e nas minhas orações. Eu só queria que você tivesse conhecido ela, só isso, mas Deus não deixou. Me resta ,como consolo, o fato de você ter se tornado nosso anjo da guarda. Tenho plena certeza disso e sei que Lia também tem. Hoje faz exatamente um ano, tia. Que saudade.
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terça-feira, 11 de março de 2014
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Tio Everaldo
Uma das pessoas que você gosta de graça. Sorriso fácil e largo. Causos e mais causos para divertir a todos.
Tio Everaldo se foi nessa madrugada; nos deixou órfãos de suas gaiatices, suas histórias, suas memórias.
Ele me lembrava muito meu avô, sob determinados aspectos - excetue-se aí o mau-humor do velho Zé Sobrinho, coisa que jamais vi passar nem próximo de tio Everaldo. Mas tinha aquele talento natural para as galhofas, para mangar dos outros, como dizemos no interior.
É, de fato, um dia que começa cinza e triste. Fiquemos com as lembranças alegres, afinal esse é o único jargão do qual não podemos fugir.
"Ei, menino de João da Mata!"
"Diga, tio Everaldo!"
"Quanto é que você tá cobrando para assombrar uma casa de dois cômodos?"
Até mais, meu velho. Deus te acompanhe.
Tio Everaldo se foi nessa madrugada; nos deixou órfãos de suas gaiatices, suas histórias, suas memórias.
Ele me lembrava muito meu avô, sob determinados aspectos - excetue-se aí o mau-humor do velho Zé Sobrinho, coisa que jamais vi passar nem próximo de tio Everaldo. Mas tinha aquele talento natural para as galhofas, para mangar dos outros, como dizemos no interior.
É, de fato, um dia que começa cinza e triste. Fiquemos com as lembranças alegres, afinal esse é o único jargão do qual não podemos fugir.
"Ei, menino de João da Mata!"
"Diga, tio Everaldo!"
"Quanto é que você tá cobrando para assombrar uma casa de dois cômodos?"
Até mais, meu velho. Deus te acompanhe.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Na chuva
Escrever com chuva é covardia. Ainda que perdido em meio aos arranha-céus metropolitanos, tenho mania de fechar os olhos ao menor pingo d´água que me molhe a fronte. Aí eu estou em Acari.
Não existe maior representação de felicidade que a visão das nuvens engolindo as cordilheiras, derramando sonhos na cabeça do sertanejo, fugaz alegria.
O vento úmido carrega sorrisos, crianças - pés descalços e semblantes de satisfação - correndo pelas biqueiras, brincadeiras sem ter fim até que ecoe o grito de "passe pra dentro".
Aí é ainda melhor, recostado a uma cadeira de balanço, enrolado na coberta espiando a festa dos passarinhos enquanto o dia vai embora.
E vem a noite dos grilos e dos sapos, da conversa na calçada, luz acesa até altas horas da noite, teto sem forro.
Outro pingo, outra lufada da brisa fria e confortável. Abro os olhos, capital, céu cinzento.
A chuva parou.
E recomeça.
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