sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Para ler com os olhos fechados

Conforme prometido, voltamos a alimentar a série "para ler com os olhos fechados". O dia dela é a sexta-feira, então, caso gostem, fiquem ligados que vamos entrar todos os fins de semana com uma bela imagem na cabeça. Seguindo o conselho do grande amigo Marcelo Panela - um dos preferidos da casa  - faço a reestreia publicando um microconto que escrevi uns anos atrás e me rendeu o primeiro lugar em um concurso da poty livros. Boa leitura:

Casa grande de sítio no pé da serra. 21h. Lua cheia. Um friozinho, uma rede no alpendre. Enrolado no lençol e no abraço. Uma vitrola tocando um vinil de Chico. Uma cachacinha boa. E pouca, por favor.
Feche os olhos.

Até mais ver.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Para ler com os olhos fechados?

Na primeira fase desse blog eu mantinha a série "Para ler com os olhos fechados". Foi ela, inclusive, que me rendeu um belo prêmio.
Para quem não conhece, eram textos curtos - microcontos, se preferirem - com forte carga sensorial e descritiva. Retratos escritos de paisagens, momentos nostálgicos, enfim... Alpendres de sítios, canoas em açudes, cabelos ao vento.
Tudo isso me parece tão distante, hoje, que me peguei pensando se valeria reeditar essa modalidade de texto por aqui. Pois bem, vamos sim!
Só tenho a leve impressão de que o teor das descrições deve mudar um pouco, mas isso é uma hipótese que só poderemos conferir amanhã, dia de "Para ler com os olhos fechados".

Até lá!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Eu voltei

Só para avisar que, sim, eu voltei. Não robertocarlosmente, talvez, mas voltei. Após alguns anos de ausência - curiosamente, desde que me casei - esse blog esteve offline. A vida de gestor  - de uma casa; de uma, duas ou, mais recentemente, três vidas - ocupa muito tempo (e muita inspiração) da minha cabeça... troquei o escrever pelo exercer. Não mais digitei meus desejos e minhas vontades, apenas vivi.

Para "piorar", desde junho último me abracei com o moribundo jornalismo impresso. Nesse caso a balança é mais equânime: Ao passo que fiquei ainda mais sem tempo, pelo menos ganhei agilidade de raciocínio, com o ritmo industrial das redações.

Enfim... pretendo, a princípio, escrever pelo menos uma vez por semana. Pode ser mais. Pode ser menos.

Minha grande alegria (re)inicial é a volta das amadas reticências, arrancadas a fórceps de mim pelo padrão pré-moldado do serviço jornalístico diário.

Benvindas de volta...

...
...
...

Benvindos de volta.

Voltei.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Maria

Maria corre no meio da rua, doida pra ver José, despida de luas, carregada de leite, integralmente mulher, Maria não tem dono; são as crias, as crias, suas proprietárias, pra elas Maria não arreda pé, esteja onde estiver Maria se deixa pertencer, sua sonhos em favor delas; José impaciente espera séculos de segundos, e ao surgir, cabelo molhado e roupa caseira, Maria desfere os primeiros cheiros, ele cai atordoado diante da supremacia do desejo, Maria ignora o tesão dele, aliás irá sempre ignorar, só se deixa gozar com o macho das crias; cria machos no seu universo peculiar, para ludibriar seu instinto de fera; vai com fúria insana no olho do macho, esguicha sêmen em forma de palavras ternas; Maria assassina o desejo de tê-lo engolindo-o por inteiro com sua teia de conversas vãs; Maria grita corpo, mas não move um dedo para levantá-lo nas suspeitas; assim faz Maria, vaporiza, e evapora insinuações.

José move-se com lentidão, meio incrédulo, mas meio gozado, despede-se; quando verá novamente a alma tonta que o embriaga? Maria, numa displicência programada marca qualquer dia e pouco mais tarde liga pra acertar detalhes; a voz é simples, a conversa também, mas o cio é longo e pode ser medido, vai ao satélite e reflete no celular, os corpos gemem de gozo, risinhos discretos denunciam a tara, mas Maria dispara qualquer palavra bomba de realidade, José imagina que é só delírio, ele pira em confusão, Maria em erupção; e em sucessivas tramas ela transa com seu macho em gozos vulcânicos liberando Josés na atmosfera do seu universo paralelo; o seu macho ofegante e extasiado de prazer , dá-lhe um respeitoso beijo depois do coito, Maria agradece a virilidade do parceiro, derrama-se em carinhos e doçuras; pra José fica a dúvida...


Jaécia Bezerra de Brito

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Conversa de perdedor:

Serei objetivo. Estive entre os dez finalistas do MPBeco deste ano, com a música "O Riso". Durante a final, realizada no sábado passado (25/09), defendi a canção junto aos outros 9 concorrentes, até aí nada demais. Comentei com todos os colegas que a final deveria estar sendo gravada com uma qualidade boa de áudio, dado o alto nível de todas as composições e tudo o mais. "Exceção seja feita à essa música desse tal Maguinho da Silva, que, pelas caridades, não serve nem pro lixo", foram minhas palavras no dia. Mas não vamos entrar no mérito do gosto pessoal.

O que me fez sair do meu cantinho e escrever um texto, então? O resultado, amigos, o resultado...

Na hora do anúncio dei aquela murchada tradicional, de quem esperava um pouco mais... não ganhei nadinha. Mas saí tranquilo. A única coisa que me inquietava era o fato da maldita música do cara ter vencido. Fiquei, porém, calado. Daí me chega Eduardo Pandolphi, meu parceiro na composição concorrente, com uma cara de decepção maior do mundo.

"O que foi, Dudu?".

"Pádua (Antônio de Pádua, jurado do festival) acabou de conversar comigo. Ele tá extremamente puto".

"O que foi, Dudu?".

"Ele disse que o resultado foi arranjado, Yuno (Yuno Silva, também jurado) confirmou."

Pois é, amigos, aí é que eu fiquei chateado de verdade. Perder é uma merda, em qualquer circunstância. Mas perder roubado é revoltante.

Ao que consta, vejam bem (carece de uma investigação mais apurada, tô escrevendo como perdedor, não como jornalista), é que o jurado Carlos de Souza (nunca ouvi falar, não sei nem quem é) teria dado nota mínima para todos os concorrentes e nota máxima para o eventual vencedor (saindo do local destinado ao júri, o amigão Maguinho da Silva o esperava para um caloroso abraço, mas isso é detalhe). Isso de acordo com os próprios jurados. Que beleza, hein?

É de uma desonestidade muito cara de pau, né não? Gente ruim. Gente que não presta.

Do lado do MPBeco, fica a decepção pela falta de preparo. Até os desfiles de escola de samba são mais bem preparados. Uma medida simples, como o corte da maior e da menor nota de cada concorrente, impede safadezas como a que parece ter ocorrido.

Eu não averiguei detalhes, repito, isso é conversa de perdedor, não de jornalista.

E para quem acha que eu tô escrevendo isso por achar que o vencedor deveria ter sido eu, calma aí. Na pior das hipóteses, eu seria o terceiro colocado, né? Mas nem nisso acredito, havia concorrentes mais fortes e que também não ganharam nada (Lunares e Júlio Lima, só pra citar dois exemplos rápidos - tá, o Lunares levou o voto do público, mas me refiro aos prêmios de 1º, 2º e 3º lugares).

Bem, eu juro pra vocês que quero muito estar errado. Quero muito que me respondam esculhambando, que eu sou um idiota e péssimo compositor. Um despeitado.

Mas com provas, por favor.

Cleo Lima.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Tudo começa com 1Kg de feijão

Minha mãe estava disposta a comer do pior feijão conceitual que poderia existir, um feijão dado por um político de última hora, nas primeiras circunstâncias de um ano eleitoral, porém a data favorecia. A criatura se armou de uma sacola plástica, óculos escuros, chinelas de marca (qualquer uma), um carão de humildade, e se postou na fila quilométrica; lá na frente, o político era só sorrisos, acenos amistosos, cumprimentos calorosos, apertos de mão e até abraços efusivos.

Ela deve ter consultado o relógio do celular pelo menos cinco vezes, mas nada de chegar a sua vez; a morosidade da fila devia-se ao fator registro, cada cidadão deveria assinar um papel dando conta do recebimento. E haja assinatura; O sol de rachar esquentava as conversas e queimava as insinuações sobre a procedência do produto, mas tudo acabava em banho maria, pois a data, mais uma vez comentada, era favorável às práticas que poderiam dar na vista em um dia comum.

Um ônibus cheio de turistas parou bem do lado da fila para pedir informação e antes que chegasse ao político bondoso, ele se esquivou numa saída estratégica para o banheiro; Os ajudantes do benévolo cidadão se adiantaram a qualquer pergunta e disseram o porquê de tamanha generosidade. Os turistas, estupefatos, perguntaram onde vendia cerveja, ou qualquer coisa que matasse a sede; Alguns ajudantes quiseram ainda dar maiores explicações, mas o motorista já dava sinais de impaciência com tamanha enrolação e meteu o pé, deixando a assistência falando sozinha. Logo o pacato e bondoso cidadão voltou à cena, ainda mais sorridente, proferindo uma parábola que não me vem à memória.

Minha mãe passou o resto da semana sentindo os pés, o resto do mês cozinhando o feijão, mas segundo ela de consciência limpa, afinal pagara uma penintência ao entrar em fila tão grande aos 65 anos e ceder lugar aos mais idosos que ela; Além do mais não havia mal nenhum aceitar uma esmola na Sexta-Feira da Paixão.

Quem dorme muito sossegado é o dito político, afinal é um homem bondoso, lembra dos eleitores até na Semana Santa; A consequência natural é o partido fortalecido, pronto a ajudar os cidadãos sempre com uma boa desculpa. O bom político tem variadas datas no ano, minha mãe as mesmas desculpas.


Jaécia Bezerra de Brito

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Bem-te-vi



Era uma vez um Bem-te-vi. Beeeem-te-viiiiiii. Ele fora concebido, chocado e nascido numa belíssima e frondosa árvore. Dessa árvore ele fez suas primeiras tentativas de vôo, e, surpreenda-se, conseguiu. Foi lá que ele construiu suas memórias. De passarinho, é verdade, mas memórias.

E ele foi crescendo, amadurecendo, adultescendo, por que não? Sempre numa invejável simbiose com a árvore. A árvore, seus ramos, seus frutos... aquilo era sua vida. De lá, bem do alto, ele via tudo o que se passava. E a vida seguia calculada, reta, tranqüila.

Um dia saiu a bater asas, abraçando o ar. Deu seu habitual passeio, mergulhou no riacho, tomou sol e cantarolou duas ou três melodias. “Bem-te-viiiii”. E voltou para sua casa.
Qual não foi sua surpresa ao perceber, na volta, a árvore cinzenta, macambúzia. No que pousou, sentiu um espinho machucar-lhe o pé. Mas resolveu deixar de lado, deitou no ninho e dormiu. Estranho mas dormiu.

Dia seguinte, mesma coisa: Passeio, riacho, sol, melodia. E a árvore do mesmo jeito: Cinzenta, macambúzia, espinhenta. E machucou o outro pezinho. O que estava acontecendo?

Dias vão e o Bem-te-vi não sai mais do ninho. Tem medo de se machucar mais e mais e mais. Afinal, a cada dia que passa os ferimentos vem ficando mais fundos, mais doloridos. Ele se sente mal, por não ter mais a forte simbiose com sua tão querida árvore. Seu canto não é mais o mesmo. “Tris-te-viiida”.

Em um fim de tarde qualquer, ele desiste de ficar parado, esperando a vida passar. Sai para mais um passeio, quer ver sua linda árvore de cima, como sempre. No primeiro agitar de asas, mal se deslocara no ar, um espinho corta-lhe o pescoço delicado. Ele sente o sangue molhando as penas do peito, mas precisa continuar. Chega, finalmente, ao ar livre. Voa para longe de sua árvore, de seu espaço, seu bem-querer. Sobrevoa alto, sentindo o ar frio magoar a ferida aberta. De lá ecoa o canto de “Tris-te-vida”. Dolorido, amargo.

O passarinho, bem, o que há de se fazer? Está lá, teimoso, esperando um milagre. Esperando que a árvore retorne ao seu encanto, suas cores bonitas, seus galhos carinhosos. Mas as forças dele parecem estar acabando... a ferida ainda aberta... E ele chora um choro baixinho de “Tris-te-vida”, sem saber se ainda consegue agüentar a dor e o cansaço ou se simplesmente fecha as asas.
 
Easy Curves Program
Easy Curves Junkie